quarta-feira, 18 de julho de 2012

ninguém disse que seria fácil

 
Eu lembro o dia que eu decidi estar onde estou. Eu era criança, frustrada, sofrida e angustiada. Não devia parecer, mas olhando pra trás a gente percebe os erros que foram acometidos na nossa vida. Como é que pode uma criança não gostar de brincar com outras? Eu tinha medo, vergonha, todos os sentimentos juntos me impedindo de sentir prazer e me divertir como toda criança o faria. Não. Eu não achava certo eu estar bem. Aliás, eu nem me lembro de vários anos da minha infância.

O dia que eu quis ser moça grande, morar sozinha, ter cabelo curto, usar óculos de armação branca e ser feliz foi um dia que, não lembro por qual motivo, eu estava me sentindo a coisinha mais insignificante do mundo. Eu fechei meus olhos, já na cama, e desejei do fundo do meu coração não ser nem estar mais ali. Porque eu não aguentava mais aquelas pessoas, não ser ouvida, ser inferiorizada, esquecida e menosprezada. Tudo isso com uns dez anos. Dez.

Agora eu tô aqui onde eu desejei há 10 anos estar. Agora eu quero desesperadoramente sair daqui de novo. Quero ir pra outro planeta, quem sabe. Quero ter que me preocupar com as coisas que uma pessoa na minha idade e situação deveria se preocupar. Quero me preocupar com o tema do meu projeto de graduação e não se vou ter dinheiro para pagar o aluguel. Quero me preocupar com as horas que terei para fazer os trabalhos das matérias das duas graduações que faço, não se vai sobrar dinheiro pra eu fazer mercado. Quero me preocupar com minha faculdade, não com um estágio ou trabalho porque preciso desse dinheiro pra comer.

E aí quando eu digo que criei uma barreira invisível pra me proteger das coisas que acontecem, sou tida como alguém que precisa se resolver. Se eu não tivesse ouvido desde cedo problemas que nada tinham a ver comigo e que eu não podia fazer nada para mudar, quem sabe eu tivesse me permitido brincar, sair, correr, me divertir.

A gente sofre demais e nem nota. E faz os outros sofrerem muito mais do que gostaria também.

2 comentários:

kallani disse...

tua infância foi muito parecida com a minha :(:

Rafaella Coury disse...

Muito boa a última frase. Muito real.