sou um livro.
gosto de páginas esbeltas,
palavras bem escritas,
parágrafos bem costurados,
linhas em branco pra preencher.
na edição de luxo tenho sobrecapa,
pantone especial,
costura colorida.
na edição comercial,
meu papel pólen é 75g/m3,
só uma cor,
nada de sobrecapa.
tudo o que gosto está em um livro bom:
página, palavra e espaço.
página pra ver e tocar, palavra pra ler e imaginar, espaço pra deixar preencher.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
terça-feira, 18 de novembro de 2014
sobre a independência
A independência também é uma ilusão e um fardo. Nunca seremos totalmente independentes porque sempre estaremos acorrentados às pessoas que nos fazem bem e que precisamos ao nosso lado ou à empresa que paga o salário no final do mês ou ainda de alguém que produz o que a gente veste, come, vê, ouve, assiste.
A independência que a gente tenta tanto alcançar é, na verdade, uma tentativa de poder tomar as próprias decisões e pagar por elas com a consciência ou com o salário, sem que dependamos de quem nos dá alguma coisa e quer ver aquilo com algum fim. É poder escolher se você quer ser vegetariano, se você vai dormir cedo ou tarde, se o filme vai ter pipoca ou não. Mas também é poder escolher fugir dos problemas e de pessoas, se reconectar em outras e mover o barco para outros portos.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
estaremos enviando um técnico para desentupir seu encanamento, senhora
Eu liguei pra agendar um técnico pra desentupir o encanamento ou o ralo
do banheiro ou tudo porque reformaram meu apartamento e fizeram de um
jeito que já vi brócolis que entrou pelo ralo da pia da cozinha e foi
parar no box do banheiro. Desde terça as mocinhas que avisam que o que
tá no sistema é isso, senhora e que a base informou que não vai poder
estar fazendo o procedimento neste horário, senhora e que precisa ter
alguém em casa, senhora, senão não podemos concluir seu atendimento com
sucesso, senhora estão reagendando o atendimento com uma máquina que a
grafia desconheço mas lê-se róto-ruter para melhor te atender, senhora.
Ligo e digo que o atendente está atrasado e a mocinha nº 239 (deve ter
sido a 5ª com que falei já) diz que ele teve contratempos e não pode
chegar no local, senhora, mas que em cerca de 20min ele estará aí para
melhor lhe atender, senhora. Não, eu não posso esperar mais. Reagendamos
para o final do dia, senhora, confirmado das 19h às 21h, senhora? Falta
meia hora pras 19h e recebo uma mensagem dizendo que seu pedido foi
agendado para o próximo dia das 13h às 18h, senhora. Ligo para falar com
mais uma mocinha nº 779 que diz que como eles precisam usar a
róto-ruter o atendimento precisa ser feito durante o dia, senhora e que
se você trabalha e mora sozinha, senhora, precisa disponibilizar alguém
para atender o técnico, senhora, porque ele precisa que alguém esteja em
casa, senhora. Ok, então pode ser na quinta-feira das 16h às 18h? Sim,
senhora, confirmado seu atendimento, senhora.
São 15h de quinta-feira e mais uma mocinha nº 834 da lista de mocinhas liga perguntando se estou em casa porque há um técnico próximo da minha casa e que poderia estar realizando o procedimento de desentupimento do ralo do seu banheiro social em cerca de 10min, senhora. Não estou em casa, então o procedimento fica no horário marcado das 16h às 18h, senhora. Passam 10min e mais uma mocinha nº345 (que eu já não tenho certeza se já falei com ou não) me liga porque estaremos reagendando seu atendimento para amanhã de manhã porque a máquina que seria utilizada está com problema, senhora. (vocês tão acompanhando? em 10min a máquina ESTRAGOU) Olha, mocinha nº 345 infelizmente não, não será reagendado porque eu nãoaguentomais e nãomeimporta se vai commáquina ou semmáquina eu quero alguém naquele apartamento para desentupir aquele ralo H O J E. Ho-je. Hoje. Dá um jeito que eu não vou esperar até amanhã. Se tu disser que vai ser reagendado eu saio daqui direto para o procon. Ou pra imobiliária. Tudo bem senhora vou estar entrando em contato com a base para ver se existe a disponibilidade de blawhiskasache hoje, senhora. A ligação cai. Ligo de novo, falo toda a ladainha de novo. Grito de novo com a mocinha nº 678. Ela diz que tem uma base que é mais longe da minha casa com o maquinário necessário, senhora, ele deve chegar em 50min na sua casa, senhora. Ok.
No ônibus, a mocinha nº 528 liga para informar que sim, vai um técnico lá em casa porém não vai conseguir chegar às 16h mas me garantiu que até as 18h sim, ele estaria lá. Não to entendendo porque tu tá me ligando, mocinha, mas ok. Eu posso esperar, tô desde terça-feira 8h esperando mesmo. A seguradora pede desculpas via mocinha nº 528 e agradece a compreensão. Eu não compreendi porra nenhuma, mas vamos em frente. Obrigada, mocinha. Mais uns minutos e a mocinha nº 47 me liga pra informar que o técnico está na sua casa para o atendimento das 16h às 18h senhora, mas a senhora não está no local. Eu tô chegando em 5min, mocinha. O mocinho nº 34 não possui maquinário algum, só uma mangueira esquisita de metal que parece um chuveirinho de chuveiro a gás. Ele constata pela 2ª vez que sim, precisamos dum maquinário para limpar o encanamento. Ligo para a seguradora pela milésima vez do dia. A mocinha nº 893 diz que está confirmado o atendimento mas que ela ligou para a base e a base que vai prestar o serviço informou que não vai conseguir cumpri o horário e reagendou o procedimento, senhora, das 18h às 20h senhora. Ela entra em contato com a base novamente e a ligação cai. Ligo, ouço minutos de musiquinhas clássicas em versões quase binárias e consigo falar com a mocinha de nº 134 que me informa que está confirmado o atendimento agendado senhora das 18h às 20h com o uso de um maquinário senhora. (vocês continuam aqui? agora pode usar o maquinário depois das 18h, antes não podia? prossigamos)
São 18:30 e a mocinha nº 65 me liga para informar que o técnico está com o maquinário mas que ele cobra um valor que excede o suposto valor que eu tenho coberto pela seguradora. Peço desculpas, não quero ser mal-educada, mas eu não sei se eu ligo pro procon, pra polícia, pra imobiliária ou mando vocês tomarem no cu. A mocinha nº 65 pede desculpas, ouve toda a novela acima supracitada e diz que vai entrar em contato com alguém de algum outro setor da seguradora e da empresa e de alguma repartição e vai me retornar sobre o assunto. São 19h e sigo esperando o retorno. A mocinha nº 65 me retorna para pedir desculpas, senhora, pois realmente na apólice do seu seguro cobria R$300 e não só R$100 como constava no sistema, senhora, por isso o técnico estará na sua casa em cerca de 120 minutos, senhora. Ele infelizmente não tem como chegar mais cedo porque está distante, senhora, mas vai tentar chegar antes desse prazo, ok senhora? A mocinha nº 65 pediu muitas desculpas por todo o transtorno e agradeceu a minha compreensão.
O mocinho nº 456 chegou tipo depiladora que te distrai, saiu perguntando se eu era de São Paulo pelo meu sotaque, perguntou o que tinha acontecido enquanto tentava tirar molas de metal enroscadas em outras molas de metal e mais fios e muita quinquilharia que estava misturada no porta-malas do carro e de um jeito super engraçado até não me fez querer afogar ele junto com as molas no encanamento entupido. Ele enfiou 7m de molas no meu encanamento via ralo do box do banheiro e ligou o tal do róto-ruter, que na verdade era um motor que girava essa mola loucamente dentro do meu encanamento, e mandou ver. Enquanto ele ainda tentava falar comigo sobre Ratones, sítio, perguntou se eu frequento uma casa de software no Porto da Lagoa na frente daquela pizzaria Nave Mãe, não? Eu tinha certeza que tinha te visto de lá, tenho a sensação que te conheço de algum lugar. Não falei que pareço a Mallu Magalhães, mas ele também não parecia o tipo que conhece a Mallu se bem que todo mundo conhece então ainda bem que não falei nada. Ele deu até uma debochada de mim e perguntou se fui na Galeria do Rock, no Brás e na 25 de março lá em SP porque ele é de lá, bebia com Os Gêmeos porque trabalhava do lado deles e agora os caras andam de terninho e a professora dele no colégio antartica era coordenadora visual do Castelo Rá-Tim-Bum e ele era coordenador lá em SP, mas decidiu largar uma grande corporação e vir pra Floripa. Enquanto isso, Nina a gata ia curiosamente cheirar o mocinho nº 456 que na verdade se chama Henrique (acho que o único que sei o nome) e o róto-ruter lá, rodando sem parar e o Henrique enfiando mais a mola e forçando e eu abri todas as torneiras e a água tava parando de subir então quando ele tirou a mola do meu encanamento disse MIAU porque uma bola absurda de pelos, cabelos, fios e outros corpos-não-voadores-que-não-se-decompõe estava na ponta da mola, provavelmente os causadores de toda essa ladainha acima supracitada.
Fim. Henrique ainda ficou falando de SP, gêmeos, que não bebia Coca e que Soda é a pior coisa pra quando tá entupido o encanamento enquanto preenchia um papel dizendo que o procedimento foi realizado com sucesso, senhora. Tomei banho olhando pro ralo esperando a água voltar, algum problema acontecer mas nada. Nadica. Água nem se mexeu. Inclusive parecia verter pra dentro do encanamento.
São 15h de quinta-feira e mais uma mocinha nº 834 da lista de mocinhas liga perguntando se estou em casa porque há um técnico próximo da minha casa e que poderia estar realizando o procedimento de desentupimento do ralo do seu banheiro social em cerca de 10min, senhora. Não estou em casa, então o procedimento fica no horário marcado das 16h às 18h, senhora. Passam 10min e mais uma mocinha nº345 (que eu já não tenho certeza se já falei com ou não) me liga porque estaremos reagendando seu atendimento para amanhã de manhã porque a máquina que seria utilizada está com problema, senhora. (vocês tão acompanhando? em 10min a máquina ESTRAGOU) Olha, mocinha nº 345 infelizmente não, não será reagendado porque eu nãoaguentomais e nãomeimporta se vai commáquina ou semmáquina eu quero alguém naquele apartamento para desentupir aquele ralo H O J E. Ho-je. Hoje. Dá um jeito que eu não vou esperar até amanhã. Se tu disser que vai ser reagendado eu saio daqui direto para o procon. Ou pra imobiliária. Tudo bem senhora vou estar entrando em contato com a base para ver se existe a disponibilidade de blawhiskasache hoje, senhora. A ligação cai. Ligo de novo, falo toda a ladainha de novo. Grito de novo com a mocinha nº 678. Ela diz que tem uma base que é mais longe da minha casa com o maquinário necessário, senhora, ele deve chegar em 50min na sua casa, senhora. Ok.
No ônibus, a mocinha nº 528 liga para informar que sim, vai um técnico lá em casa porém não vai conseguir chegar às 16h mas me garantiu que até as 18h sim, ele estaria lá. Não to entendendo porque tu tá me ligando, mocinha, mas ok. Eu posso esperar, tô desde terça-feira 8h esperando mesmo. A seguradora pede desculpas via mocinha nº 528 e agradece a compreensão. Eu não compreendi porra nenhuma, mas vamos em frente. Obrigada, mocinha. Mais uns minutos e a mocinha nº 47 me liga pra informar que o técnico está na sua casa para o atendimento das 16h às 18h senhora, mas a senhora não está no local. Eu tô chegando em 5min, mocinha. O mocinho nº 34 não possui maquinário algum, só uma mangueira esquisita de metal que parece um chuveirinho de chuveiro a gás. Ele constata pela 2ª vez que sim, precisamos dum maquinário para limpar o encanamento. Ligo para a seguradora pela milésima vez do dia. A mocinha nº 893 diz que está confirmado o atendimento mas que ela ligou para a base e a base que vai prestar o serviço informou que não vai conseguir cumpri o horário e reagendou o procedimento, senhora, das 18h às 20h senhora. Ela entra em contato com a base novamente e a ligação cai. Ligo, ouço minutos de musiquinhas clássicas em versões quase binárias e consigo falar com a mocinha de nº 134 que me informa que está confirmado o atendimento agendado senhora das 18h às 20h com o uso de um maquinário senhora. (vocês continuam aqui? agora pode usar o maquinário depois das 18h, antes não podia? prossigamos)
São 18:30 e a mocinha nº 65 me liga para informar que o técnico está com o maquinário mas que ele cobra um valor que excede o suposto valor que eu tenho coberto pela seguradora. Peço desculpas, não quero ser mal-educada, mas eu não sei se eu ligo pro procon, pra polícia, pra imobiliária ou mando vocês tomarem no cu. A mocinha nº 65 pede desculpas, ouve toda a novela acima supracitada e diz que vai entrar em contato com alguém de algum outro setor da seguradora e da empresa e de alguma repartição e vai me retornar sobre o assunto. São 19h e sigo esperando o retorno. A mocinha nº 65 me retorna para pedir desculpas, senhora, pois realmente na apólice do seu seguro cobria R$300 e não só R$100 como constava no sistema, senhora, por isso o técnico estará na sua casa em cerca de 120 minutos, senhora. Ele infelizmente não tem como chegar mais cedo porque está distante, senhora, mas vai tentar chegar antes desse prazo, ok senhora? A mocinha nº 65 pediu muitas desculpas por todo o transtorno e agradeceu a minha compreensão.
O mocinho nº 456 chegou tipo depiladora que te distrai, saiu perguntando se eu era de São Paulo pelo meu sotaque, perguntou o que tinha acontecido enquanto tentava tirar molas de metal enroscadas em outras molas de metal e mais fios e muita quinquilharia que estava misturada no porta-malas do carro e de um jeito super engraçado até não me fez querer afogar ele junto com as molas no encanamento entupido. Ele enfiou 7m de molas no meu encanamento via ralo do box do banheiro e ligou o tal do róto-ruter, que na verdade era um motor que girava essa mola loucamente dentro do meu encanamento, e mandou ver. Enquanto ele ainda tentava falar comigo sobre Ratones, sítio, perguntou se eu frequento uma casa de software no Porto da Lagoa na frente daquela pizzaria Nave Mãe, não? Eu tinha certeza que tinha te visto de lá, tenho a sensação que te conheço de algum lugar. Não falei que pareço a Mallu Magalhães, mas ele também não parecia o tipo que conhece a Mallu se bem que todo mundo conhece então ainda bem que não falei nada. Ele deu até uma debochada de mim e perguntou se fui na Galeria do Rock, no Brás e na 25 de março lá em SP porque ele é de lá, bebia com Os Gêmeos porque trabalhava do lado deles e agora os caras andam de terninho e a professora dele no colégio antartica era coordenadora visual do Castelo Rá-Tim-Bum e ele era coordenador lá em SP, mas decidiu largar uma grande corporação e vir pra Floripa. Enquanto isso, Nina a gata ia curiosamente cheirar o mocinho nº 456 que na verdade se chama Henrique (acho que o único que sei o nome) e o róto-ruter lá, rodando sem parar e o Henrique enfiando mais a mola e forçando e eu abri todas as torneiras e a água tava parando de subir então quando ele tirou a mola do meu encanamento disse MIAU porque uma bola absurda de pelos, cabelos, fios e outros corpos-não-voadores-que-não-se-decompõe estava na ponta da mola, provavelmente os causadores de toda essa ladainha acima supracitada.
Fim. Henrique ainda ficou falando de SP, gêmeos, que não bebia Coca e que Soda é a pior coisa pra quando tá entupido o encanamento enquanto preenchia um papel dizendo que o procedimento foi realizado com sucesso, senhora. Tomei banho olhando pro ralo esperando a água voltar, algum problema acontecer mas nada. Nadica. Água nem se mexeu. Inclusive parecia verter pra dentro do encanamento.
sábado, 14 de setembro de 2013
redemoinho
claustrofóbica de mim mesma,
sufocada dentro e fora de mim.
presa nos piores disparates de cristal,
nas melhores boas vontades de muniz,
me sinto assim,
como se tivesse enrolada em fita durex.
colada,
presa,
angustiada,
incômoda.
soltar significa grudar
e quanto mais eu solto,
mais eu me grudo
em mim.
a dificuldade maior é saber se grudo
solto
continuo
sufoco
respiro
ou nada faço.
sufocada dentro e fora de mim.
presa nos piores disparates de cristal,
nas melhores boas vontades de muniz,
me sinto assim,
como se tivesse enrolada em fita durex.
colada,
presa,
angustiada,
incômoda.
soltar significa grudar
e quanto mais eu solto,
mais eu me grudo
em mim.
a dificuldade maior é saber se grudo
solto
continuo
sufoco
respiro
ou nada faço.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
vizinhança
Abri a janela e dei de cara com um apartamento vazio. Minha janela da cozinha (que também é sala) dava para a janela da sala de um apartamento onde morava uma família que fazia parte dos meus dias. Pedrinho e seus pais dividiam um apartamento que, na melhor das hipóteses, tinha uns 35m2. Logo depois que eu me mudei e a senhorita minha gata adquiriu amores pela janela, mãe e filho brincavam no chão, ali embaixo e, me vendo na janela em busca da bichana, perguntaram coisas sobre ela e sobre mim. Descoberto o nome da gatinha, Pedrinho chamava por ela quase todas as manhãs que ia bater bola com a mãe: "Nina! Nina! Nina!". Nessas horas eu queria que ela fosse menos gato e mais cachorro, para dar atenção ao menino.
Outra vizinha que sempre chama pela Nina quando a vê na janela é uma senhora muito duvidosa do terceiro andar aqui do prédio. Gordinha, com cara de que não gostou mas com uma vozinha altamente doce - o que me confunde muito -, ela sempre leva para passear a Suzi e o Luki (vamos supôr que se escrevam assim os nomes). Suzi é uma cachorra muito parecida com a dona, apesar de ser extremamente mais simpática. Pretinha, parecida com um cocker e geralmente de lacinho, ela costuma vir me cheirar quando nos encontramos no corredor. O Luki eu suponho que seja o salsichinha, mas sei da sua existência porque todo santo dia ele é chamado umas dez vezes. Sabe-se lá o que o pobre cachorro foi fazer, só sei que sobram gritos de "Luuuukiiiii, luuuukiiiii" de manhã e final da tarde também.
Essa mesma senhora é casada com um senhor muitíssimo simpático. Ele é bem balofinho e tem um bigode protuberante, desses bem proeminentes, que escondem a própria boca. Com uma cara de quem está sorrindo por trás do bigode (e que a gente não tem muito bem como ter ou não certeza), ele me cumprimentou poucas vezes, porque nos encontramos pouco nos corredores ou portas. A única vez que ele se dirigiu a mim foi para perguntar se minha gatinha (ela mesma) estava bem e em casa. Na noite anterior ela se jogou, se defenestrou, quis tentar a liberdade ou simplesmente seguiu seus instintos atrás de um bolinho de penas voador e foi achada miando no portão, pedindo para entrar no prédio. Como a bicha é exibida e todos os vizinhos sabem que ela mora aqui, o senhor do bigode veio conferir se eu era "a menina da gata que fica na janela" e se tava tudo certo. Respondi meio rindo que sim, que a peste estava bem, que nem eu sabia como ela tinha parado lá.
Aliás, o moço que veio me avisar que a Nina estava querendo desesperadoramente voltar para o aconchego do nosso mini lar é um ser muito curioso. Ele é bem novo, deve ter uns 26 anos e, se não terminou a faculdade, está num mestrado. Ele tem cara de estar no meio acadêmico. De vez em sempre vejo ele de chapéu, o que acho curioso e bonito e também me faz concluir que ele ouve samba. Inclusive, já vi ele em uma festa que comprova isso. Ele tem duas cachorras vira-latas, dessas profissionais em serem vira-latas, bem amarelinhas. Ouço eles saindo e entrando do prédio direto, e elas sempre saem sem coleira. Não sei como a Nina não foi caçada no dia que caiu da janela!
Falando em janela, eu moro no primeiro andar e é bem baixo, não vai acontecer nada com a Nina se ela resolver desbravar o mundo novamente. Mas ela tá o tempo todo na janela. Sempre. Vez ou outra eu vou verificar se ela ainda está lá ou onde a pestinha se meteu, assim, por precaução. Numa dessas ela estava paradinha sentada na janela fazia muito tempo e fui ver o que tanto ela observava: era a Laura, filhinha dos vizinhos aqui do lado. Agarradinha nas grades da janela, a pequena, que só se via testa, franjinha e olhos arregalados, observava o ser branco e peludo. Quando eu apareci e falei com ela, rolou alguma comunicação tipo "gatinho" "aham" "você gosta de gatinhos?" ":)". A pequena, com uns 2 anos, não deu muita bola para mim. A mãe dela é uma querida, que faz geografia e leva a filha de bicicleta todosantodia para o trabalho, creche, faculdade. Eu não sei como é que dá certo, mas ela e o marido saem todos os dias de bike. Acho lindo. Eles acorrentam as bikes juntas, inclusive. Muito amô.
Outra vizinha que sempre chama pela Nina quando a vê na janela é uma senhora muito duvidosa do terceiro andar aqui do prédio. Gordinha, com cara de que não gostou mas com uma vozinha altamente doce - o que me confunde muito -, ela sempre leva para passear a Suzi e o Luki (vamos supôr que se escrevam assim os nomes). Suzi é uma cachorra muito parecida com a dona, apesar de ser extremamente mais simpática. Pretinha, parecida com um cocker e geralmente de lacinho, ela costuma vir me cheirar quando nos encontramos no corredor. O Luki eu suponho que seja o salsichinha, mas sei da sua existência porque todo santo dia ele é chamado umas dez vezes. Sabe-se lá o que o pobre cachorro foi fazer, só sei que sobram gritos de "Luuuukiiiii, luuuukiiiii" de manhã e final da tarde também.
Essa mesma senhora é casada com um senhor muitíssimo simpático. Ele é bem balofinho e tem um bigode protuberante, desses bem proeminentes, que escondem a própria boca. Com uma cara de quem está sorrindo por trás do bigode (e que a gente não tem muito bem como ter ou não certeza), ele me cumprimentou poucas vezes, porque nos encontramos pouco nos corredores ou portas. A única vez que ele se dirigiu a mim foi para perguntar se minha gatinha (ela mesma) estava bem e em casa. Na noite anterior ela se jogou, se defenestrou, quis tentar a liberdade ou simplesmente seguiu seus instintos atrás de um bolinho de penas voador e foi achada miando no portão, pedindo para entrar no prédio. Como a bicha é exibida e todos os vizinhos sabem que ela mora aqui, o senhor do bigode veio conferir se eu era "a menina da gata que fica na janela" e se tava tudo certo. Respondi meio rindo que sim, que a peste estava bem, que nem eu sabia como ela tinha parado lá.
Aliás, o moço que veio me avisar que a Nina estava querendo desesperadoramente voltar para o aconchego do nosso mini lar é um ser muito curioso. Ele é bem novo, deve ter uns 26 anos e, se não terminou a faculdade, está num mestrado. Ele tem cara de estar no meio acadêmico. De vez em sempre vejo ele de chapéu, o que acho curioso e bonito e também me faz concluir que ele ouve samba. Inclusive, já vi ele em uma festa que comprova isso. Ele tem duas cachorras vira-latas, dessas profissionais em serem vira-latas, bem amarelinhas. Ouço eles saindo e entrando do prédio direto, e elas sempre saem sem coleira. Não sei como a Nina não foi caçada no dia que caiu da janela!
Falando em janela, eu moro no primeiro andar e é bem baixo, não vai acontecer nada com a Nina se ela resolver desbravar o mundo novamente. Mas ela tá o tempo todo na janela. Sempre. Vez ou outra eu vou verificar se ela ainda está lá ou onde a pestinha se meteu, assim, por precaução. Numa dessas ela estava paradinha sentada na janela fazia muito tempo e fui ver o que tanto ela observava: era a Laura, filhinha dos vizinhos aqui do lado. Agarradinha nas grades da janela, a pequena, que só se via testa, franjinha e olhos arregalados, observava o ser branco e peludo. Quando eu apareci e falei com ela, rolou alguma comunicação tipo "gatinho" "aham" "você gosta de gatinhos?" ":)". A pequena, com uns 2 anos, não deu muita bola para mim. A mãe dela é uma querida, que faz geografia e leva a filha de bicicleta todosantodia para o trabalho, creche, faculdade. Eu não sei como é que dá certo, mas ela e o marido saem todos os dias de bike. Acho lindo. Eles acorrentam as bikes juntas, inclusive. Muito amô.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
pão dôce
A moça da padaria chamou o número onze. Entreguei a ficha com o mesmo número impresso e, na hora que abri a boca para falar o que queria, um moço encostou no meu braço e disse: "deixa só eu perguntar pra ela antes, senão vou embora - e olhando pra moça da padaria - tem pão doce?" Enquanto a moça ia conferir, ele olhou pra mim meio pedindo desculpas e eu dei um sorrisinho, sem conseguir dizer nada porque, em verdade, não tinha problema e foi uma surpresa e tanto. Tinha pão doce. O moço encostou a cesta de compras no balcão da padaria e eu pedi 4 pães de trigo dos mais clarinhos, por favor. Olhei dentro da cesta dele e tinha chocolate, melancia e um bolo. O moço nem era bonito, eu nem reparei nisso, reparei na cestinha dele - mania de criar histórias e perfis pras pessoas a partir do que elas estão comprando no mercado - mas quase virei pra ele pra pedir o telefone dele e dizer que eu gosto muito de pão doce também, moço. Mas a moça me entregou meus cuatro pães de trigo mais clarinhos e eu fui para a fila do pastel.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
6 frases aleatórias que levo pra vida
1) "A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
2) "Não faça pros outros o que não gostaria que fizessem a ti mesmo."
3) "Muito ajuda quem não atrapalha."
4) "Si todo empieza y todo tiene un final, hay que pensar que la tristeza también se va, se va, se fue…"
5) "Uma pessoa que é legal com você, mas não é com o garçom, não é uma boa pessoa."
6) "Be the type of person you want to meet"
2) "Não faça pros outros o que não gostaria que fizessem a ti mesmo."
3) "Muito ajuda quem não atrapalha."
4) "Si todo empieza y todo tiene un final, hay que pensar que la tristeza también se va, se va, se fue…"
5) "Uma pessoa que é legal com você, mas não é com o garçom, não é uma boa pessoa."
6) "Be the type of person you want to meet"
sexta-feira, 29 de abril de 2011
amor de mentirinha

Eu não quero um amor de mentirinha. Às vezes, tenho medo até de um de verdade. Não quero fingir que gosto de alguém que não gosto. Não sei ser assim.
Você não tem uma vírgula que eu mudaria. Gosto tanto das suas mãos quanto dos seus pés, quanto do seu caráter, do seu jeito de se vestir, do seu sorriso, do seu cheiro, do jeito que você fala, do jeito que você sempre me tratou, do teu gosto musical, de tudo o que a gente já viveu juntos, gosto de tudo. Acho lindo tudo. Sempre achei. E é esse o problema, porque a recíproca não deve ser verdadeira. Porque "às vezes a gente acha a pessoa certa, mas quem não é a pessoa certa, somos nós".
As ânsias de nos querermos continuam...
quarta-feira, 30 de março de 2011
não há fogo, só cigarro e fumaça
Tem vezes que você nem percebe no que está a sua volta: nem nas pessoas, nem nos sons, muito menos nas intenções. No fundo, a gente presta atenção no que nos interessa. E, se implantam o interesse, você passa a prestar atenção.
Quando ganhei um abraço e fui nomeada "minha amiga", aposto que levantei a sobrancelha. Mas fiquei ali, sem saber o que falar. Peguei um cigarro. Depois outro. Sumiço. Reaparece.
- Quer?
- Quero, você fuma?
- Às vezes, e você?
- Não.
Ficou na minha cabeça que algo tinha ali, porque se não fumava, por que estava fumando? Na verdade, se fosse um Marlboro Light ainda, ou um Lucky que tinha sido o segundo... mas era um Marlboro Red. Forte. Não era uma falsa-tragada, o gosto ficaria. Gosto errado, diga-se de passagem.
Quando ganhei um abraço e fui nomeada "minha amiga", aposto que levantei a sobrancelha. Mas fiquei ali, sem saber o que falar. Peguei um cigarro. Depois outro. Sumiço. Reaparece.
- Quer?
- Quero, você fuma?
- Às vezes, e você?
- Não.
Ficou na minha cabeça que algo tinha ali, porque se não fumava, por que estava fumando? Na verdade, se fosse um Marlboro Light ainda, ou um Lucky que tinha sido o segundo... mas era um Marlboro Red. Forte. Não era uma falsa-tragada, o gosto ficaria. Gosto errado, diga-se de passagem.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
planos (in)acabados pro final de ano
Chega essa época do ano e a gente quer fazer tudo o que não fez durante o ano: ler 35 livros, ser feliz, fazer as pazes com todo mundo, arranjar um amor avassalador, tirar 10 em todas as matérias e passar com 100% de frequência, ser magra/o, morar e ir todo dia pra praia, não ter nenhum problema, ser rico, ser popular, amigo de todo mundo, ter com quem contar, ser reconhecido, inteligente, ter aprendido, ter aproveitado, ter ficado bêbado sem ter dado vexame, cabelos sedosos, todos os dentes na boca, nenhum problema, família perfeita, não ter derramado nenhuma lágrima "por quem não vale a pena", tem vivido intensamente, fervorosamente o ano todo, loucamente, insana, usado todas as drogas sem ter se viciado, nao ter adoecido, não ter sentido nenhuma dor, não ter caído, não ter se arrependido daquelas idiotices que você pensou, disse e fez...
É. Mas não dá mais tempo pra tudo isso.
É. Mas não dá mais tempo pra tudo isso.
sábado, 6 de novembro de 2010
um futuro, quem sabe?
First of all... não sei porque, toda vez que penso em escrever certas coisas, as palavras me vem em inglês. Talvez seja pela sensação de codificação, como se o escrito pudesse sem guardado em minha memória de maneira que não sofreria riscos. Pode ser também pela impressão de criptação, como se ninguém mais pudesse entender. Enfim, o caso é que na primeira vez que eu vi, senti um mar de borboletas na minha barriga como a muito não sentia. Cheguei a achar que estava enlouquecendo, aquele olhar de bondade, como sempre "senti". Como pode, conhecer tão bem alguém que a gente não conhece? Lembro que depois disso, fui informada que éramos quase iguais. Dessa vez foi o peito que pulou, mas não sei explicar o porquê. Depois, quando fiquei o dia inteiro preocupada como você estava, e depois do abraço que me desconstruiu, eu já não sabia o que era o que. Abri caminho pra um sentimento que havia acabado o estoque, fiquei anos sem saber o que era isso. Tive certeza quando fiquei te observando, nem lembro o que você tava fazendo, mas era de longe, e não sei, mas parecia que já tinha visto tudo. Saber um pouco mais só me deixou mais curiosa. E teu sumiço, minha falta de cérebro, e outras preocupações mudaram os planos dos dias. Mas já resolvido, cá estou: esperando por alguma incerteza da vida, mas com a certeza de que dessa vez estou fazendo certo. Certo? Não sei, na verdade. Mas quero tentar. E é de sorrisos que é feita essa história. Apenas sorrisos. Por isso, não sei se espero mais pelo abraço ou pelo sorriso.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
algo que não passa, nem com o tempo, nem com a faca
domingo, 30 de maio de 2010
it's only fear
Eu não tenho pretensão de salvar o mundo, mas providências serão tomadas.
Se sentir falta é ser dependente, então sim, dependo.
Se sentir falta é ser dependente, então sim, dependo.
domingo, 21 de junho de 2009
avec adr
- Do que tu sabe? Bah, fala comigo. OK, não chateio mais
- Falo. Do que eu sei? Sei lá.
- É. Do que sabes. De nada, nadinha, nadica de nada.
- Um cadinho de alguns eu sei. Sei fazer tricô, sei costurar, sei cozinhar, sei mexer no photoshop, sei escolher meus amigos, sei que tenho alergia a pó e rinite alérgica, sei que te adoro.
- É pouco. Sabes de quem te adora? de verdade assim? cadinho a mais a cada dia?
- Não, conte-me.
- Pois não conto
- Pois como não? Quero saber! Fez-me a pergunta e disse-lhe que não, cabe a você respondê-la de forma que eu passe a saber a resposta
- Tic tac tic tac. Pois digo-lhe: quem te adora, tanto o faz, que não pode expressar por palavras, soaria piegas, clichê e menos nobre. Nobre nunca foi, piegas é às vezes e os clichês estão aí para serem usados, pois então: adoro a cristal mais do que se adora os sinônimos de seu nome.
- Pois com palavras soa mais bonito, claro. Mas no nosso caso, em que palavras são o usual e a voz se perdeu, a voz soaria mais bonita. Mesmo que com o início do inverno possamos estar levemente adoecidos.
- Falo. Do que eu sei? Sei lá.
- É. Do que sabes. De nada, nadinha, nadica de nada.
- Um cadinho de alguns eu sei. Sei fazer tricô, sei costurar, sei cozinhar, sei mexer no photoshop, sei escolher meus amigos, sei que tenho alergia a pó e rinite alérgica, sei que te adoro.
- É pouco. Sabes de quem te adora? de verdade assim? cadinho a mais a cada dia?
- Não, conte-me.
- Pois não conto
- Pois como não? Quero saber! Fez-me a pergunta e disse-lhe que não, cabe a você respondê-la de forma que eu passe a saber a resposta
- Tic tac tic tac. Pois digo-lhe: quem te adora, tanto o faz, que não pode expressar por palavras, soaria piegas, clichê e menos nobre. Nobre nunca foi, piegas é às vezes e os clichês estão aí para serem usados, pois então: adoro a cristal mais do que se adora os sinônimos de seu nome.
- Pois com palavras soa mais bonito, claro. Mas no nosso caso, em que palavras são o usual e a voz se perdeu, a voz soaria mais bonita. Mesmo que com o início do inverno possamos estar levemente adoecidos.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Do primeiro beijo

Chega uma hora que sua boca vai encostar na de outro alguém, e não há como evitar. Lembro-me hoje, dos meus anos de glória, rindo de mim mesma. A primeira vez que profanei minha boca junto a de outro menino foi numa daquelas brincadeiras de criança. Foi nas férias de verão e quando recomeçaram as aulas empinei meu nariz pois minha boca não era mais de criança.
Aconteceu que minha boca era de criança sim, somente meus lábios haviam sido contaminados pela nova fase da vida. Estava tomando banho pois estava na piscina quando duas das minhas amigas vieram correndo, eufóricas, dizendo que Ele estava lá. Eu, bem calma, fiz o que teria de ser feito. E depois, acabei profanando todos os cantos da minha boca com língua na língua e tudo! Lembro-me da lagarta verde na parede e do gosto do beijo que perdurou dias.
"Atire a primeira pedra
Quem não sofreu, quem não morreu por amor
Todo corpo que tem um deserto
Tem um olho de água por perto
Para ouvir basta abrir os poros
Para aceitar basta oferecer
Para quê adiar um desejo
De alguém que lhe quer tanto beijo
Quem de vocês
Resiste a uma tentação
Quem pretende revogar a lei do coração
Quem ousaria
Dessas vozes duvidar
Deixa a sua natureza se manifestar"
Quem não sofreu, quem não morreu por amor
Todo corpo que tem um deserto
Tem um olho de água por perto
Para ouvir basta abrir os poros
Para aceitar basta oferecer
Para quê adiar um desejo
De alguém que lhe quer tanto beijo
Quem de vocês
Resiste a uma tentação
Quem pretende revogar a lei do coração
Quem ousaria
Dessas vozes duvidar
Deixa a sua natureza se manifestar"
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